2ND ENERGY AND WATER INNOVATION & TECHNOLOGY TRADE SHOW

25 → 26 SETEMBRO 2024 . EXPONOR . FEIRA INTERNACIONAL DO PORTO

João Rodrigues

Diretor-Exercutivo da Associação Portuguesa dos Industriais de Engenharia Energética

“Estamos perante um quadro de enorme escassez de mão-de-obra”

Perante o “enorme conjunto de projetos” em perspetiva na interseção do domínio da transição energética com o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e as metas do Portugal 2030, a indústria nacional de engenharia energética está perante um “quadro de enorme escassez de mão-de-obra”, alerta João Rodrigues, diretor-executivo da Associação Portuguesa dos Industriais de Engenharia Energética, em entrevista ao ENERH2O, evento em que marcará presença.

Não obstante a preocupação, o responsável máximo da APIEE – que representa um tecido empresarial responsável por um volume de negócios anual da ordem dos 1.500 milhões de euros e emprega aproximadamente 32.000 funcionários diretos e indiretos -, acredita que o nosso País poderá conseguir encurtar em cinco anos a sua ambição lusa de neutralidade carbónica. Há é que promover a “dignificação das profissões técnicas, por forma a conseguir reter os profissionais” necessários às empreitadas, bem como de proceder a uma “profunda simplificação dos processos de licenciamento”.

– As empresas associadas da APIEE são os principais prestadores de serviço de grandes grupos como a EDP – Energias de Portugal, a REN – Redes Energéticas Nacionais, a Altice Portugal e de outros importantes clientes institucionais. Qual é o peso do segmento na economia nacional? 

 – Os associados da APIEE representam um volume de negócios anual da ordem dos 1.500 milhões de euros, empregando aproximadamente 32.000 funcionários diretos e indiretos em permanência. Representamos a totalidade das empresas presentes na empreitada contínua de construção e manutenção da rede de distribuição de média e de baixa tensão. Mas, não só: representamos igualmente a totalidade das empresas que constroem e mantêm a rede de transporte de eletricidade e a quase a totalidade das empresas que constroem e mantêm a rede de distribuição de gás natural. Possuímos ainda uma grande representatividade das empresas que constroem e mantêm as infraestruturas de telecomunicações e daquelas que executam as instalações técnicas especiais das mais importantes infraestruturas públicas e privadas que são construídas no nosso País.

– Quais são na atualidade os principais desafios dos industriais portugueses de engenharia energética? São coincidentes com os temas que estão em cima da mesa de trabalho da APIEE para o setor e que irão marcar a atividade associativa e empresarial a curto e médio prazos, ou existem alguns dossiês mais transversais e de fundo?

 A atual Direcção da APIEE identificou quatro desafios estruturais: a escassez de mão de obra; a transição energética; a transformação digital; e a sustentabilidade, vista pelo seu triplo pilar das empresas, pessoas e do clima. Em consequência, temos em curso um conjunto de ações, às quais dedicamos a nossa prioridade e empenho. Pugnamos por uma transição energética justa e inclusiva, que garanta um futuro mix energético equilibrado, resiliente e competitivo. Quando dizemos equilibrado, pensamos na necessidade de que o futuro mix energético nacional acomode as mais diversas fontes de energia renovável, como sejam a eletricidade verde e os gases renováveis (hidrogénio e biometano, entre outros). Consideramos absolutamente necessária a existência de uma certificação que garanta que todos os técnicos que executam instalações de eletricidade e gás estejam devidamente habilitados para realizar essas tarefas. Esse grau de exigência já existe atualmente para o setor do gás, mas o mesmo não acontece nas instalações de eletricidade. Por outro lado, conscientes do enorme conjunto de projetos que terão de ser realizados ao abrigo da Transição Energética, do PRR e do Portugal 2030, torna-se evidente que, tal como no resto da Europa, estamos perante um quadro de enorme escassez de mão-de-obra. No nosso entender, é necessário que o setor energético nacional seja capaz de atrair, formar, certificar e reter essa mão-de-obra, o que terá de ser feito obrigatoriamente através da dignificação das profissões técnicas que empregamos, fazendo-o através do aumento do rendimento líquido desses profissionais. Trata-se, por isso, tão só de pugnar pela existência de um mercado maduro e desenvolvido, onde a concorrência entre as empresas seja feita de forma justa e leal. Somos ainda favoráveis à necessidade de simplificar processos de licenciamento e execução dos projetos, uma vez que, apesar dos esforços já realizados, os mesmos são ainda longos e bastantes imprevisíveis.

Mix energético de Portugal compara muito bem com congéneres europeus

– Qual é o posicionamento do “estado da arte” português do setor relativamente aos congéneres europeus? Os desafios são semelhantes? 

Sim, os desafios são semelhantes e, tal como anteriormente referi, são colocados à escala europeia. Começo com uma nota positiva, de reconhecimento que as atuais infraestruturas de transporte e distribuição de energia têm uma performance bastante boa, por comparação com as congéneres europeias, bem como reconhecendo que Portugal sempre foi capaz de integrar as mais sofisticadas tecnologias que estão disponíveis internacionalmente. Há também que recordar que Portugal compara muito bem com os seus congéneres europeus no que diz respeito à penetração de energias renováveis no seu atual mix energético, mas que, no entanto, apresenta ainda alguns défices que importa corrigir. Desde logo aqueles que dizem respeito à eficiência energética dos edifícios, bem como da existência de níveis de pobreza energética em quantidades superiores aos da União Europeia. Por outro lado, Portugal, em comparação com vários outros países europeus, apresenta um menor produto interno bruto, pelo que temos um sério risco de perder para esses países os técnicos que as nossas empresas estão a formar. Torna-se, portanto, absolutamente prioritário encararmos de frente a questão da dignificação das profissões técnicas, a que anteriormente me referi.

– A APIEE irá dinamizar uma das conferências previstas no programa de atividades complementares do ENERH2O. Qual será o tema da intervenção e quais serão as principais mensagens a estar em destaque?

Iremos dinamizar um painel sobre os desafios que enfrentamos no projeto, construção e manutenção de parques fotovoltaicos e/ou eólicos. No entanto, sendo a APIEE uma associação empresarial representativa das empresas vulgarmente designadas por instaladores, iremos fazer a dinamização desse painel evidenciando da importância que o instalador tem para o sucesso final desses investimentos.

– Como avalia a APIEE o atual momento da transição energética em Portugal? Quais foram até agora as principais conquistas do País e o que urge ainda fazer?

Tal como anteriormente já referi, Portugal é considerado, à escala internacional, um excelente exemplo na transição energética, havendo inclusive a possibilidade de o País encurtar em cinco anos a sua ambição de neutralidade carbónica. Sobre o que urge fazer, várias coisas podiam ser referidas, mas começo por repetir algo anteriormente abordado: Portugal tem de promover a dignificação das profissões técnicas, por forma a conseguir reter os profissionais que necessitamos, bem como de proceder a uma profunda simplificação dos processos de licenciamento. Para que tal aconteça, julgo absolutamente necessário que exista um permanente diálogo entre todas as partes interessadas do ecossistema energético nacional, o qual contribua para que se ultrapassem com sucesso as dificuldades existentes. Permito-me também recordar as variadíssimas vezes em que, num recente evento que participei, a célebre expressão “concordo, mas não no meu quintal” foi utilizada… A expressão era usada por forma a reforçar da necessidade da mudança de mentalidades, o que deve ser feito através da comunicação e envolvimento de todos, de forma a assegurar a adoção das alterações pretendidas. Trata-se, portanto, tão só e uma vez mais, de garantir uma transição energética justa e inclusiva. Finalmente diria que é necessário assegurar o financiamento dos projetos a executar, com especial atenção para a necessidade de ajudar no desenvolvimento das mais promissoras tecnologias, por forma a que as mesmas ganhem escala e a necessária competitividade.

Indústria do setor é protagonista na excelente posição de Portugal nas energias renováveis

– Os mais recentes números do Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis 2023 (que recebeu mais de 78 mil candidaturas à primeira fase) mostra que as quatro cidades mais populosas (Lisboa, Porto, Braga e Aveiro) são responsáveis por quase metade das candidaturas. A sustentabilidade e a eficiência energética dos edifícios ainda não entraram definitivamente portas adentro do imobiliário nacional? Que leitura faz a APIEE da atual realidade do tema?

Não irei comentar diretamente da razão pela qual essas quatro cidades representam quase metade das candidaturas, mas atrevo-me a pensar que as questões da sustentabilidade e da eficiência energética já estão presentes numa faixa muito alargada da população e, seguramente também, no setor do imobiliário. Importa aqui recordar que, tendo em atenção que muitos destes projetos são realizados ao nível local por prestadores de serviços locais, será absolutamente necessário que os mesmos sejam executados por quem se encontre habilitado para os executar. Não é de todo aceitável que estes projetos possam ser realizados por quem não esteja habilitado para o fazer, certo? Em consequência, reforçamos o nosso apelo para a existência de um processo de certificação de todos os técnicos que intervêm com as instalações técnicas especiais, onde estejam presentes a eletricidade, o gás e as telecomunicações.

– Quais têm sido os últimos passos da APIEE no domínio da sustentabilidade e da transição energética e quais foram as respetivas motivações de partida, como sejam os objetivos socioeconómicos?

 Temos feito um grande esforço de sensibilização de todos os nossos associados para as questões da sustentabilidade, sempre vista pelos seus três pilares fundamentais: empresas, pessoas e clima. Por outro lado, é do conhecimento geral que muitas das empresas nossas associadas têm estado envolvidas nos projetos que permitiram a excelente posição que Portugal tem atualmente no uso de energias renováveis; bem como temos vindo a procurar sensibilizar os nossos associados na sua preparação para reportarem aos seus principais clientes indicadores que gradualmente serão solicitados, como sejam aqueles intimamente ligados aos critérios ESG [ambientais, sociais e de governança corporativa]. Iremos também continuar a procurar encontrar outras formas de apoiar os nossos associados, especialmente tendo em atenção a heterogeneidade de empresas que representamos.

– De que forma pode o ENERH2O – Energy and Water Innovation & Technology contribuir para reforçar a importância das energias renováveis na vida dos portugueses e no futuro do País? E como deseja que o evento evolua nas próximas edições?

R – Porque considero fundamental o envolvimento de cada vez mais pessoas e organizações neste movimento rumo à descarbonização da nossa economia, que em simultâneo reforce a competitividade de Portugal à escala internacional, considero como muito bem-vindos todas estas iniciativas, sendo por isso natural que nela nos envolvamos. Desejo que se torne um evento de referência à escala nacional e que ajude a fomentar uma consciencialização alargada da importância da transição energética para descarbonização da economia, promovendo em simultâneo os princípios da economia circular e garantindo o envolvimento de todos os nossos concidadãos. Não é de todo uma tarefa fácil, mas acredito que todos temos um contributo a entregar, por isso apelo à adesão de todos para esta causa que considero comum.