2ND ENERGY AND WATER INNOVATION & TECHNOLOGY TRADE SHOW

25 → 26 SETEMBRO 2024 . EXPONOR . FEIRA INTERNACIONAL DO PORTO

Celeste Campinho

Presidente da Associação dos Instaladores de Portugal 

AIPOR na ENERH2O: em defesa do Planeta A

Celeste Campinho, Presidente da Associação dos Instaladores de Portugal antecipa a segunda edição da ENERH2O, da qual a AIPOR é parceiro institucional. Em entrevista, analisa a importância dos setores em destaque – água, energia e renováveis – no contexto da descarbonização e transição energética do País.

– A AIPOR esteve na estreia do ENERH2O, há um ano. Que balanço faz a Associação do evento, quais são as expetativas para esta edição e que fatores distintivos e/ou mais valias transporta a feira para a indústria do setor e para os visitantes?
RESPOSTA – O balanço da edição de 2023 foi francamente positivo. Esperamos que em 2024 tenhamos pelo menos um resultado semelhante ao ano anterior, mas sabemos que o potencial será bastante superior. O grande fator de diferenciação é conseguir uma feira dedicada exclusivamente para as áreas da energia e água permitindo aos stakeholders do setor encontrarem-se num único espaço.
– Quais são na atualidade os principais desafios que profissionais de instalação portugueses enfrentam no mercado?
R – Acima de tudo a segurança e a capacidade de oferecer serviços integrados de qualidade. Profissionais altamente qualificados, suportados por tecnologias capazes de facilitar os processos e ancorados na inovação constante são os grandes desafios.
– Nos últimos cinco anos, em Portugal, como avalia a evolução das renováveis em contexto de transição energética e que tendências se desenham para o futuro próximo, a que convirá estar atento?
R – Apesar de termos ainda um longo caminho pela frente, os números sobre Portugal falam por si. Em 2023, a produção de energia renovável atingiu o valor mais elevado de sempre no sistema nacional, tendo abastecido 61% do consumo de energia elétrica no ano passado. De forma mais específica, a energia eólica abasteceu 25% do consumo, a hidroelétrica contribuiu com 23% do total e a fotovoltaica e biomassa 7% e 6%, respetivamente. Se olharmos para a posição de Portugal no contexto europeu, a verdade é que o País tem tido um percurso notável, sendo que estamos em terceiro lugar – Noruega e Suécia ocupam os primeiros lugares – no lote de Estados que mais aposta nas energias renováveis. A penetração cada vez maior de energias limpas é fundamental para a transição energética e para o caminho de uma sociedade mais descarbonizada. Consideramos que a meta para alcançar a neutralidade carbónica em 2050 será mais fácil de atingir, caso o País mantenha este caminho de crescimento renovável em Portugal.

“Portugal tem um longo caminho a percorrer no que respeita à pobreza energética”

– Portugal está a caminhar na direção certa, com a rapidez desejada e a fazer as apostas certas no atual contexto de transição energética?
R – Portugal tem-se adaptado e tem sabido perceber a importância da aposta da transição energética. Por um lado, porque as exigências europeias a nível climático assim o obrigam, por outro, por vontade própria, sobretudo na última década, e que se tem materializado na vontade política de fazer acontecer. A este propósito, relembramos as metas revistas no âmbito do Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC), que nos fazem acreditar que o País está na trajetória positiva de descarbonização da economia, compatível com o Acordo de Paris e com as metas do Pacto Ecológico Europeu. A rapidez pode não ser a desejada ainda e é certo que temas como o investimento e a desburocratização dos processos é essencial, bem como consciencializar os cidadãos para a importância da transição energética. Além disso, a competitividade económica também ganha outros contornos, e para um País como Portugal é fulcral, de forma também a captar investimento, não só nacional como estrangeiro. A mudança de mentalidades, como sabemos, não se faz de um dia para o outro, mas pelos dados que conhecemos de muitos setores, acreditamos que será possível continuar a construir um caminho cada vez mais verde, sustentável e descarbonizado.
– Até à data, os cidadãos portugueses souberam aproveitar da melhor forma os incentivos criados para apoiar os custos da mudança para um novo paradigma energético?
R – Portugal tem ainda um longo caminho a percorrer também no que respeita à pobreza energética, sendo que, dos números oficiais, entre dois a três milhões de pessoas, estão nesta situação de debilidade. Tem havido, nos últimos anos, vários incentivos públicos ao dispor dos cidadãos para fazerem face a este problema. Entre eles o Programa Vale Eficiência, dirigido a beneficiários da tarifa social de energia elétrica ou que pertençam a um agregado familiar em que pelo menos um dos membros seja beneficiário de uma das seguintes prestações: complemento solidário para idosos; rendimento social de inserção; pensão social de invalidez do regime especial de proteção na invalidez; complemento da prestação social para a inclusão; pensão social de velhice ou subsídio social de desemprego. Com este plano pretende-se que as pessoas em situação económica mais vulnerável possam investir na melhoria do conforto térmico da sua habitação, quer por via da realização de intervenções na envolvente quer pela substituição ou aquisição de equipamentos e soluções energeticamente eficientes. Os Vales podem financiar, por exemplo, a substituição de janelas ou a instalação de sistemas de aquecimento. A juntar a este, o Fundo Ambiental, através do Programa Edifícios Mais Sustentáveis, é outra alternativa disponível. Trata-se de uma medida de apoio que permite ao consumidor ser parcialmente reembolsado, por exemplo, pela substituição de janelas por outras mais eficientes, de classe energética A+, ou pela instalação de sistemas de climatização ou aquecimento de água baseados em fontes de energia renováveis. São dois exemplos em que os cidadãos podem, sem dúvida, fazer parte da mudança e do paradigma. E se é certo que são conhecidos alguns constrangimentos no que respeita à burocracia e morosidade das candidaturas, também é verdade que a existência de programas como estes ajudam a começar o processo de mudança de paradigma. Acreditamos que, resolvida a burocracia e acelerada a rapidez no acesso aos fundos, será possível solidificar esta mudança.

“Imobiliário e construção civil cada vez mais alinhados com a eficiência energética”

– Apesar dos incentivos estatais, muitos consumidores continuam a considerar o investimento em energias renováveis ainda demasiado oneroso. O que poderá mudar o atual estado desta perceção?
R – É verdade que, para muitos portugueses, investir em renováveis parece ainda ser algo difícil, sobretudo pelo custo. Mas é importante sublinhar que cada investimento terá sempre um retorno maior que o custo inicial, e, se falarmos no autoconsumo propriamente dito, percebe-se porquê. Produzir, armazenar e consumir a própria energia será sempre um investimento com ganhos a médio-longo prazo. Saber explicar aos cidadãos que esse custo é um investimento, pessoal, económico e ambiental (em prol de todo um Planeta) é a chave para que a mensagem passe de forma eficaz. A aposta nas renováveis é sinónimo de melhoria nos índices de eficiência energética, mas também a qualidade de vida das pessoas que, como já referimos anteriormente, ainda está longe do desejável no que respeita aos índices de pobreza energética nacional.
– Os mercados imobiliário e de construção civil portugueses têm estado/estão atentos, ativos e a adotar as melhores soluções energéticas no mercado residencial?
R – Sem dúvida, ambos os setores estão cada vez mais alinhados com a eficiência energética, não só nas novas construções, como na melhoria do parque edificado existente, designadamente ao nível da reabilitação urbana. Falamos não só da utilização de materiais cada vez mais sustentáveis, como também na utilização das tecnologias eficientes, integração de energias renováveis e gestão e digitalização de processos associados à construção, com soluções cada vez mais verdes. Isso acontece não só ao nível das janelas, dos vidros, dos materiais de isolamento térmico, sistemas de climatização cada vez mais eficientes, entre outros elementos. O setor da Construção e Imobiliário há muito que trabalha neste desígnio também da descarbonização, porque na verdade edifícios eficientes consomem menos energia e são hoje mais valorizados no mercado imobiliário, o que pode aumentar o retorno sobre o investimento para os proprietários e investidores. Além disso, a sustentabilidade ambiental e o conforto dos ocupantes (cidadãos) são ganhos muito importantes nesta preocupação do setor.
-A requalificação das cidades portuguesas tem, nos últimos anos, abraçado o desafio/oportunidade das energias renováveis da melhor forma. Como classificaria os esforços feitos nesse patamar?
R – A requalificação das cidades portuguesas tem trilhado um caminho paulatino, mas importante. Desde há 10 anos a esta parte que os grandes centros urbanos, com Lisboa e Porto à cabeça, têm trilhado uma importante estratégia de renovação urbana. O crescimento do turismo, as alterações e implementações legislativas, designadamente a alteração à lei do arrendamento urbano (NRAU) e a criação de programas de incentivo ao investimento estrangeiro, bem como os benefícios fiscais específicos para a reabilitação, ajudaram muito nesse processo. As renováveis também foram – e continuam a ser – integradas nos processos de reabilitação urbana, com ganhos enormes para o resultado das renovações. Não estamos a falar apenas em imóveis residenciais, mas também requalificações de grandes projetos, como são o caso de hotéis, que fruto desse investimento de há uma década e até aos dias de hoje são exemplos de reabilitação urbana com foco na eficiência e sustentabilidade. É fundamental regenerar as cidades e os grandes centros urbanos, para que sejam capazes de captar vida, economia e turismo. Esse trabalho tem sido, em certa medida, bem conseguido em Portugal.

“Caminho é só um e sem retrocesso: o da descarbonização e sustentabilidade”

– Quando se ouve falar em energias renováveis, no mercado residencial e empresarial, o comum cidadão pensa quase exclusivamente no segmento fotovoltaico… Mas há mais “vida” no setor das renováveis para além da energia solar – é assim? Tem-se a impressão de que a gestão da água e dos resíduos continuam a ser os “parentes pobres” – (ainda) está correta esta impressão? Explique-nos o sentido da sua perspetiva.
R – Consideramos que essa ideia já não está tão presente. Hoje sabemos que os setores da Água e dos Resíduos são essenciais para a transformação energética da sociedade. A eficiência hídrica e a importância cada vez maior dos resíduos, com ganhos económicos, ambientais e sociais está cada vez mais enraizada no espaço público. Hoje, os portugueses estão mais conscientes para o problema da água, da seca e da importância da reciclagem. Não é um caminho rápido, porque também aqui o paradigma geracional demora a acontecer. Contudo, há cada vez mais a perceção na sociedade portuguesa da urgência de todos estes elementos que, integrados, contribuem para um estilo de vida mais sustentável e para a preservação do único Planeta que temos.
– O clima está a mudar em todo o mundo mais rapidamente do que o esperado. Quantas vezes está a ser mais lenta a descarbonização e a transição energética no mundo que apelidamos de mais desenvolvido? O que é preciso fazer para acelerar a mudança de paradigma?
R – As alterações climáticas assumem a urgência do nosso tempo. Estamos hoje numa corrida contra o tempo, mas temos de ser capazes, todos, individual e coletivamente, de construir esse futuro. Sabemos que só conseguiremos estancar problemas graves se agirmos já hoje e, em algumas áreas, já estamos a trilhar esse percurso. Mas não sejamos tolerantes com o tempo, ele urge, e se adotarmos um comportamento passivo, não estaremos a estancar o avanço progressivo das secas (que serão mais severas e prolongadas no futuro, com impactos cientificamente provados na Península Ibérica) nem a acautelar os recursos naturais, que cada vez temos de preservar com mais intensidade. Tal como diz o velho chavão, ‘Não há Planeta B’, e o caminho é só um e sem retrocesso: o da descarbonização e sustentabilidade.
– Quais serão as linhas de força da participação da AIPOR na 2.ª edição do ENERH2O 2024?
R – A AIPOR regressará com muito orgulho à segunda edição da ENERH2O. Consideramos ser um palco privilegiado de contacto e interação com o mercado e os agentes do setor da energia e água. Dar a conhecer e promover os serviços da AIPOR e as nossas áreas técnicas ao mercado é o grande intento da nossa associação no certame. Além disso, é igualmente um espaço privilegiado para estar no terreno com os nossos Associados. Estamos convictos de que será uma grande Feira! Parabéns à organização pela iniciativa. Contem com a AIPOR para fazer parte dela!